Quarta-feira, 5 de Dezembro de 2012

Vendedor de sonhos

Em janeiro do passado ano escrevia este post "O VENDEDOR DE SONHOS". Vendi o sonho a muitos e o meu único lucro era poder sonhar como eles. O sonho nunca se realizou mas ficou sempre aquele elo que nos unia semanalmente, algo em que acreditávamos pudesse acontecer. E, ao fim de uma longa "carreira", finalmente fechei essa mala de sonhos. Não porque deixasse de acreditar nele mas porque não me é possível continuar a assumir aquela responsabilidade para com eles. Esta "carreira" que já durava desde o longínquo ano de 1997 teve agora o seu epílogo. Quase 16 anos a vender esperança, a manter unidos em torno de um objectivo, aqueles grupos de amigos. 

Fechei o sonho fechando aquilo que cabia a cada um, da sua participação nele, em pequenos sacos de plástico e entregando em mão os trocos sobrantes. Foi uma despedida rápida que não é despedida. Ficam os amigos que se encontrarão quando puderem e a vida assim o permitir. Mas, depois de tantas semanas a alimentar o sonho, 52 semanas por ano, durante 15 anos dá a módica quantidade de 780 semanas, mais umas ou menos algumas, já era mais que um hábito, era quase uma missão. E o terminar faz-me sentir como se algo na minha vida tivesse ficado por ali. 

Mas não se acabam os sonhos. Continuarei a ser, eternamente, um vendedor de sonhos. Não que lucre com o sonho, mas o facto de poder continuar a sonhar já é lucro que justifique. Apenas mudam os sonhos e serei vendedor dos sonhos em que eu mesmo acredito ou não faria sentido para mim. 

Talvez que a razão disso seja a razão porque sinto este poema de António Gedeão de uma forma tão especial. Porque acredito que "o sonho comanda a vida"...

 

Pedra Filosofal

Eles não sabem que o sonho

é uma constante da vida

tão concreta e definida

como outra coisa qualquer,

como esta pedra cinzenta

em que me sento e descanso,

como este ribeiro manso

em serenos sobressaltos,

como estes pinheiros altos

que em verde e oiro se agitam,

como estas aves que gritam

em bebedeiras de azul.

 

eles não sabem que o sonho

é vinho, é espuma, é fermento,

bichinho álacre e sedento,

de focinho pontiagudo,

que fossa através de tudo

num perpétuo movimento.

 

Eles não sabem que o sonho

é tela, é cor, é pincel,

base, fuste, capitel,

arco em ogiva, vitral,

pináculo de catedral,

contraponto, sinfonia,

máscara grega, magia,

que é retorta de alquimista,

mapa do mundo distante,

rosa-dos-ventos, Infante,

caravela quinhentista,

que é cabo da Boa Esperança,

ouro, canela, marfim,

florete de espadachim,

bastidor, passo de dança,

Colombina e Arlequim,

passarola voadora,

pára-raios, locomotiva,

barco de proa festiva,

alto-forno, geradora,

cisão do átomo, radar,

ultra-som, televisão,

desembarque em foguetão

na superfície lunar.

 

Eles não sabem, nem sonham,

que o sonho comanda a vida,

que sempre que um homem sonha

o mundo pula e avança

como bola colorida

entre as mãos de uma criança.

 

In Movimento Perpétuo, 1956


publicado por Francisco às 00:12
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